Reconhecer sinais de sofrimento, oferecer escuta sem julgamentos e buscar atendimento profissional são atitudes que podem contribuir para a prevenção do suicídio. Durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre o tema, o Plano de Saúde da Justiça Militar da União (PLAS/JMU) chama a atenção dos beneficiários para a importância do acolhimento e da procura por ajuda diante de situações de sofrimento emocional.
Mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O fenômeno é complexo e pode ser influenciado por fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais. Por isso, atribuí-lo a um único acontecimento ou motivo é uma interpretação inadequada.
Para o psiquiatra Vitor Guerra Pereira Xavier, da Seção de Serviço Médico da Diretoria de Saúde do Superior Tribunal Militar (STM), compreender essa multiplicidade de fatores é fundamental. “O comportamento suicida é um fenômeno complexo e, em geral, não pode ser explicado por uma única causa. Ele costuma resultar da interação de diferentes fatores (psicológicos, biológicos, sociais e ambientais) ao longo da história de cada pessoa”, explica.
Perdas, separações, conflitos familiares ou profissionais e dificuldades financeiras podem estar presentes em determinados momentos da vida, mas não devem ser interpretados isoladamente como causa de um suicídio. Transtornos mentais, especialmente quando não reconhecidos ou tratados adequadamente, também podem aumentar a vulnerabilidade, sem, contudo, explicar todos os casos.
Segundo Vitor, evitar explicações simplistas contribui para reduzir o estigma e permite compreender de maneira mais ampla o sofrimento de cada pessoa. Mais importante do que procurar uma causa única é reconhecer esse sofrimento e criar possibilidades de cuidado e ajuda.
Quando procurar ajuda
O sofrimento emocional faz parte da experiência humana, mas merece atenção quando se torna intenso ou persistente e passa a comprometer aspectos da vida cotidiana, como o sono, as relações, o trabalho, os cuidados pessoais ou a capacidade de enxergar alternativas para os problemas.
A busca por atendimento não precisa ficar restrita aos momentos de crise. “Não é necessário esperar que o sofrimento chegue a uma situação extrema para procurar ajuda”, explica o psiquiatra.
A avaliação profissional permite compreender melhor o que está acontecendo, identificar fatores de risco e de proteção e definir as formas de cuidado mais adequadas. Dependendo de cada situação, o acompanhamento pode envolver psicólogos, psiquiatras e outros profissionais ou serviços de saúde.
Quando há pensamentos de morte ou de suicídio, a avaliação se torna ainda mais importante. O acompanhamento profissional também possibilita que o cuidado não fique restrito ao momento de crise e continue pelo período necessário. “Pedir ajuda não deve ser entendido como sinal de fraqueza, mas como uma forma de cuidado com a própria saúde”, ressalta Vitor.
Sinais merecem atenção
Não existe uma fórmula segura para identificar quando uma pessoa está vivenciando uma crise suicida. Mais do que observar uma manifestação isolada, é importante perceber mudanças significativas em relação à maneira habitual de agir, de se relacionar e de realizar as atividades cotidianas.
Isolamento crescente, perda de interesse por atividades antes importantes, alterações marcantes do sono ou do comportamento, desesperança intensa, sensação de ser um peso para os outros e falas recorrentes sobre morte, vontade de desaparecer ou de não querer mais viver estão entre as manifestações que merecem atenção.
Nenhum desses sinais, isoladamente, permite concluir que alguém esteja pensando em suicídio. Mudanças importantes, principalmente quando aparecem em conjunto ou se intensificam, justificam, porém, uma aproximação cuidadosa.
O sofrimento também nem sempre é facilmente perceptível. Algumas pessoas continuam trabalhando, convivendo e cumprindo suas atividades mesmo quando estão emocionalmente fragilizadas. “Por isso, não existe uma aparência única de alguém em sofrimento ou em risco”, explica o psiquiatra.
Acolher sem julgar
Ao perceber mudanças preocupantes no comportamento de alguém próximo, a aproximação deve ser feita com disponibilidade, respeito e disposição para ouvir. “O primeiro passo é se aproximar com disponibilidade e sem julgamento. É mais importante ouvir verdadeiramente do que tentar encontrar imediatamente uma solução para o problema”, orienta Vitor.
Demonstrar preocupação, perguntar o que está acontecendo e oferecer ajuda podem facilitar a conversa. Se houver suspeita de que a pessoa esteja pensando em suicídio, o assunto pode ser abordado de maneira clara e respeitosa.
Vitor esclarece que perguntar diretamente sobre pensamentos de morte ou suicídio não incentiva esse comportamento. “Perguntar se alguém está pensando em morrer ou em tirar a própria vida não ‘coloca essa ideia na cabeça’. Ao contrário, pode permitir que um sofrimento que estava sendo vivido em silêncio seja finalmente comunicado.”
Também devem ser evitadas frases que minimizem ou comparem o sofrimento, como dizer que a situação é apenas uma fase, que a pessoa precisa ser forte ou que existem pessoas enfrentando problemas maiores. Mesmo quando ditas com boa intenção, essas manifestações podem transmitir a sensação de que aquilo que a pessoa vive não está sendo compreendido.
O apoio de familiares, amigos e pessoas próximas é importante, mas não substitui a assistência especializada. “Também é importante lembrar que acolher não significa assumir sozinho a responsabilidade pelo cuidado”, destaca o psiquiatra. A pessoa pode ser incentivada a procurar atendimento profissional e, quando possível, acompanhada nesse processo.
Onde procurar ajuda
Se houver risco imediato de suicídio, a pessoa não deve permanecer sozinha e é necessário buscar atendimento de urgência. É possível procurar uma Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24h), pronto-socorro ou hospital. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pode ser acionado gratuitamente pelo número 192 e funciona 24 horas por dia, todos os dias.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, com atendimento 24 horas.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o cuidado em saúde mental é oferecido por diferentes pontos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), entre eles as Unidades Básicas de Saúde (UBS), os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), hospitais e serviços de urgência e emergência. Os CAPS podem ser procurados diretamente, sem necessidade de agendamento para o primeiro acolhimento.
Os beneficiários do PLAS/JMU também podem consultar a Rede Credenciada para localizar profissionais e serviços disponíveis para atendimento. A relação de prestadores está disponível no site oficial do Plano de Saúde.
Reconhecer o sofrimento e buscar ajuda são medidas de cuidado. Da mesma forma, quem percebe mudanças preocupantes em alguém próximo pode contribuir oferecendo escuta, acolhimento e apoio para que essa pessoa tenha acesso ao atendimento adequado.
Fontes:
Setembro Amarelo: https://www.setembroamarelo.com/
Organização Mundial da Saúde (OMS): https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/suicide, https://www.who.int/health-topics/suicide e https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/suicide
Ministério da Saúde: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao/suicidio-prevencao e https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/desmad/raps/caps



